terça-feira, outubro 03, 2006

Arame farpado

Estou a ler o "Império", do jornalista Ryszard Kapuscinski (During his four decades of reporting on Asia, Latin America, and Africa, Kapuscinski witnessed 27 coups and revolutions and was sentenced to death four times.) O livro conta as suas viajens pelos territórios da antiga União Soviética, o Império do título. Não resisto a colocar um texto sobre o arame farpado. Sei que é comprido, mas acho que vale a pena, porque é uma abordagem curiosa e original.

Tendo em conta que, onde fosse tecnicamente possível, as fronteiras em questão sempre tinham sido (e continuavam a ser) protegidas por enormes fossos de arame farpado (vi essa parafernália nas fronteiras com a Polónia, a China e o Irão) e que o referido arame, devido ao péssimo clima, se estragava rapidamente e tinha que ser substituído com frequência em centenas, melhor, em milhares de quilómetros, podemos aceitar como dado adquirido que grande parte da metalurgia soviética mais não era que a indústria do arame farpado.

Além do mais, isto não se esgotava só com as fronteiras! Quantos milhares de quilómetros de arame não se usaram nos fossos à volta do arquipélago Gulag? Aquelas centenas de campos de concentração, etapas e cárceres espargidos por todo o território do Império! Quantos milhares de quilómetros não se gastaram ainda a cercar superfícies poligonais de artilharia, de carros blindados e de armas nucleares? E as vedações aramadas dos quartéis militares? E as de toda a espécie de armazéns?

Se multiplicarmos tudo isto pelos anos de existência do poder soviético, não será difícil responder à pergunta sobre a razão de nas lojas de Smolensk ou Omsk não se conseguir comprar uma enxada ou um martelo, para já não falar numa faca ou numa colherzita: não há matéria-prima para fabricar estes objectos; gastou-se tudo com o fabrico de arame farpado. Mas a coisa não acaba aqui! Ao fim e ao cabo, toneladas deste arame tiveram que ser transportadas - em barcos, em comboios, em camelos, em trenós puxados por cães - para os lugares mais remotos, para os recantos mais inacessíveis do Império para depois ser descarregado, desenrolado, cortado e fixado. Não é difícil imaginar as intermináveis reclamações - por telefone, telégrafo ou carta - de comandantes de postos fronteiriços, de comandantes de lagers (campos de concentração) e de directores de prisões pedindo novas remessas de toneladas de arame levados pelo seu zelo previdente de fazerem grande aprovisionamento para a eventualidade de faltar nos armazéns centrais. Por outro lado, também não é difícil imaginar aqueles milhares de equipas e comissões de controlo percorrendo o Império de ponta a ponta com o objectivo de verificar se tudo estava bem cercado, se os fossos tinham altura e espessura suficientes, se o emaranhado de arames era suficientemente denso de forma a que nem mesmo um rato conseguisse escapar através dele. Também é fácil imaginar as chamadas telefónicas de Moscovo aos seus subordinados nas províncias, chamadas que contêm o alerta e a preocupação constante encerrados na pergunta: De certeza que aí estais bem aramados? E é por isso que os homens, em vez de construírem casas e hospitais, em vez de comporem instalações de água e electricidade, que não cessam de se estragar, durante anos e anos estavam ocupados (felizmente nem todos) a aramar o seu Império, pelo interior e pelo exterior, à escala local e estatal.

2 comentários:

Jorge disse...

Até pode ser curiosa, mas não é certamente original.
Então não é que o Congresso Norte Americano, umas décadas de "civilização" adiante do relato que transcreves decreta fazer um muro de 1200Km (para já) na sua fronteira com o México. Algum progresso já se sente (agora em vez do arame a industria é a do betão).
Infelizmente todos os "impérios" são riziveis.
Quanto a campos de concentração...nem é bom falar, porque os há por aí (alguns em pedaços de ilhas colonialmente ocupadas, outros que ningém sabe exactamente onde ficam mas sabe-se que existe um imenso tráfego aéreo que os alimenta). Campos igualmente cercados por arames igualmente farpados.
Por outro lado acho de uma certa sobranceria de posição o modo como, no final do texto fala dos funcionários zelosos em torno de uma actividade infeliz imposta por um governo autoritário. Talvez seja melhor a pregunta que noutros hemisférios, outros empregados, tanbém eles zelosos, mas ao serviço de outros "senhores" fazem, quando condicionam o tratamento médico a um acidentado à porta de um hospital à apresentação do "papelinho" do seguro de saúde.

..."Tempos Modernos"... mas os hábitos dos impérios, com ligeiros acertos no enfoque....permanecem muito semelhantes.

Jorge Ribeirinho Machado disse...

Jorge, estou totalmente de acordo: não só Guantanamo é um horror, existente num Império que tem coisas inacreditáveis, como a defesa da pena de morte e a NRA, como também nós temos alguns tiques de Império, por termos uma população que aceita sem reclamar atentados contra a dignidade do Homem.